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IMPRESSOES DE VIAGEM
Amish Country
Voce ja ouviu falar desse lugar ou desse povo?! Os nao-muito
jovens que assistiram o filme "A Testemunha", que
rodou em 1985, com Harrison Ford, ja! Foi naquela ocasiao que
minha curiosidade foi depertada para conhece-los.
Conhecer esta populacao que vive como se fosse ha 300 anos atras
sempre me pareceu que seria uma experiencia e tanto. E foi!
Apos os preparativos costumeiros de passagem de aviao, verificacao
de opcoes como trem, onibus, horarios, aluguel de carro, acessos,
dificuldades x possibilidades, munida de mapas e outros detalhes,
embarquei para o Este americano.
Saindo de Boston antes que uma tardia neve de abril alcancasse
aquela cidade, fui para Filadelfia, onde cheguei de trem e de
la partiria para Lancaster, a maior cidade proxima de Amish
Country, interior da Pensilvania. Alcancei Filadelfia pela madrugada,
com 0ºC, muita chuva e vento, e ali mesmo na estacao ja
tive uma amostra local da beleza desta cidade, mas isto e assunto
para um outro artigo sobre impressoes de viagem.
O trem partiu 5h da manha, e no caminho nao consegui escapar
de uma quase nevasca que branqueava as margens do caminho e
a paisagem local tornando a noite ainda mais fria. A noite estava
muito escura e se misturava com a neve tornando tudo de um cinza-chumbo.
Um misto de funesto e romantico ar se misturavam permeando a
noite naquela pequena viagem de trem. Dividida entre a beleza
da neve e a ideia que tinha de ver aqueles campos verdes maravilhosos,
e assustada pela possibilidade de ter que dirigir em meio aquelas
condicoes, coisa que nunca havia feito, me deixaram momentaneamente
assustada, mas logo me acalmei tendo a certeza que coisas boas
iriam acontecer, fossem qual fossem as condicoes climaticas
quando chegasse a Lancaster.
Enquanto esperava o carro locado na estacao de Lancaster percebi
que, embora muito frio, nao havia neve alguma na cidade e que
o sol comecava a aparecer, meio timido, mas que aos poucos ia
tomando conta com ares de quem vinha para ficar.
Saindo do centro desta cidade, me dirigi para o Farm Breadandbreakfast
- uma especie de hotel-fazenda - onde tinha minha reserva, escolha
que nao foi por acaso.
Embora meio sonolenta pela noite insone, ja comecei a perceber
e a me deslumbar com a beleza da paisagem a minha volta: fazendas
enormes, muito verdes - de um verde que o sol esplendoroso daquela
manha fazia questao de tornar ainda mais brilhante -, com casas
enormes de estilo colonial americano, na sua maioria brancas,
que se perdiam de vista na imensidao daqueles campos.
O hotel-fazenda-residencia nao era uma tradicional casa colonial
americana branca, mas era muito confortavel e acolhedora, como
toda casa de fazenda deve ser. Logo fui recebida pela dona da
casa - esta e a filosofia dos breadandbreakfast, uma residencia
que abre suas portas para receber os convidados, digo, os hospedes.
Munida de mais mapas, roteiros e dicas, fui em "busca dos
Amishes". Mais andava em meio aquelas fazendas, mais me
deslumbrava. A cada 2km, pausa para fotos. As estradas em excelente
condicoes em meio as fazendas era outro fator de excitacao.
Porcoes de neve ainda eram vistas em alguns poucos lugares,
dando um toque especial naquele cenario.
Primeira parada: Lititz, para aproveitar os mais saborosos pretzels
da regiao. Os pequenos e cobertos com chocolate foi a opcao
escolhida, claro!
Mais um pouco de estrada e entao, uau! O primeiro buggy Amish,
aparece a minha frente. Uma carruagem bem simples, preta, toda
fechada, puxada a cavalo e que anda a 15km por hora. Mesmo olhando-os
de frente, mal se consegue distinguir os rostos que estao ali
dentro, sendo, muitas vezes, de criancas e mulheres.
Continuei a trajetoria ate o Amish Village, um centro comercial
que tem artesanato Amish, museus, centros com documentarios
e tudo que se imagine relacionado a eles.
Continuei o passeio em meio as fazendas, agora, na sua maioria,
de propriedade Amish. Cheguei ao local indicado onde sairia
um tour guiado para um contato mais proximo com uma fazenda
Amish e seus proprietarios. Antes, assisti a uma pequena peca
onde foi mostrado um pouquinho da cultura Amish, seu comportamento
social e religioso. Neste local tambem pode ser apreciado o
interior de uma residencia Amish, sua decoracao e costumes,
o que serve de modelo para os visitantes, umas vez que turistas
comuns nao tem acesso a isso de outra forma.
Os buggies ficaram cada vez mais comuns. As criancas estavam
saindo das escolas e tentavamos fotografa-los a partir do onibus.
Chegamos a uma tipica fazenda Amish. Fotografa-los diretamente?
Seria uma agressao a eles. O maximo que pude fazer foi usar
o Zoom 300mm que possuia e tentar aproximar a imagem o maximo
possivel.
Conversar com eles parece algo estranho e inatingivel em funcao
das muitas estorias que se ouve, mas no contato que tivemos
a nevoa de misterio se desfez. Eles tem uma filosifia de vida
bastante diferente da nossa, e verdade, mas no fundo sao tao
- ou mais - normais do que nos, pessoas de uma sociedade culturalmente
aceita pela maioria. Ate porque, e impossivel para eles viverem
100% a parte da nossa comum estrutura social. Eles tem de alguma
forma contatar e mesmo, de negociar, com todos da regiao.
Apos o passeio com o grupo, me dediquei mais um pouco a observar
o movimento do povo Amish e continuar me deliciando com toda
aquela paisagem. Em torno de 5h da tarde eles comecam a se recolher
e entao comecam a circular em um numero maior juntos. Adolescentes,
jovens, mocas e rapazes, criancas, homens, em buggies ou a pe;
e um bom momento para fotografa-los. Sempre de longe, para nao
perturbar a paz local.
Tambem entre 17h e 17h30min fecham todas as lojas, e os restaurantes
locais nao passam das 19h. No verao eles excedem ate 20h30min.
Ha que se correr para conseguir um lugar, mas de qualquer maneira
ha muitas e boas opcoes. A comida tradicional e basicamente
alema e holandesa, dada a origem deste povo.
O mais tradicional artesanato da regiao, confeccionado pela
dona-de-casa Amish, sao os famosos Quilts, uma especie de patchwork,
trabalho feito com pequenos pedacoes de tecido, magnifico e
surpreendente, quer pela harmonia das cores ou pelo desenho,
pecas que vao de simples guardanapos a colchas e cortinas, tudo
costurado a mao.
Frequentam as escolas patrocinada pela propria comunidade Amish.
Todos vestem-se com roupas escuras e, como sao padronizadas,
o Amish borda seu nome no interior do casaco para que nao se
confundam seus proprietarios. O sexo masculino usa chapeu desde
muito pequeno, sendo preto ou de palha especial e clara, e quando
casam passam a usar barbicha que nunca mais tiram, e o sexo
feminino usa uma touca branca muito leve ou um lenco escuro
na cabeca.O namoro acontece dentro de rigidas normas. Sexo antes
do casamento? Nem pensar!
Eles nao usam energia eletrica e por consequencia nao escutam
radio nem assistem televisao, o que iria de encontro a vida
simples e voltada para a familia que e a ideia central que orienta
a vida dos Amishes. Mistura de religiao e filosofia de vida,
esse povo tem uma vida regrada, voltada ao trabalho, e modesta,
embora as fazendas sejam de fazer inveja.
Telefone, uns poucos publicos espalhados pela regiao, o que
possibilita contatos de emergencia com a "civilizacao normal",
incluidos naquele, o parto, doenca ou morte. As casas nao tem
tapete nem carpete, tao pouco ar-condicionado ou outras facilidades
modernas. Sao utilizadas formas alternativas de energia.. As
roupas sao secas num varal externo, neste caso, um habito bastante
nosso conhecido.
A mulher Amish, alem de se dedicar ao lar e produzir os quilts,
tambem ajuda no plantio e na colheita quando isto se faz necessario.
Os trabalhos religiosos sao desenvolvidos na casa de cada familia..
Todos tem seu altar e se revezam nessas atividades, realizada
aos domingos.
A convivencia com "os ingleses", assim chamados os
vizinhos nao-Amishes, e pacifica e amistosa.Todos pagam impostos
ao governo americano, mas os homens nao sao obrigados a servir
nas forcas armadas. Alguns se rebelam e escolhem a vida moderna,
vao estudar em universidades e deixam suas familias. Ainda assim,
na Pensilvania, onde esta a maior concentracao, eles sao em
torno de 22 mil pessoas e o total no Pais, 85 mil.
Tambem existem os Mennonites, de cultura parecida com aos Amishes,
mas bem menos rigidos em suas regras e bem menos conhecidos
ou famosos.
Depois desta tao desejada aproximacao com os Amishes, tinha
uma outra coisa em mente que era fotografar algumas das pontes
cobertas da Pensilvania, nao tao famosas como as Pontes de Madison,
mas ainda assim tao charmosas quanto. Datadas de seculos passados
e destruidas aos poucos, essas pontes estao concentradas basicamente
nesta regiao proxima a Lancaster e contam um pouco da historia
da colonizacao americana.
Agora o por-do-sol pintava de dourado aquelas brancas casas
e verdes campos. Uma imagem inesquecivel! Perdida naquela contemplacao
quase que nao consigo restaurante aberto, mas nao podia sair
de la sem comer a tradicional comida regional; entao encontrei
um restaurante, no minimo interessante, na verdade um hotel,
cujos quartos eram vagoes de um antigo trem, e o restaurante,
claro, tambem um vagao, atendido por um pessoal muito simples
e amistoso, no coracao de Amish Country.
A noite desceu e tinha que voltar para o meu hotel-fazenda.
Mas acontece que me perdi por um detalhe e fui parar num bairro
de Lancaster, onde passei por uma rua que mais parecia uma pintura
- ou seria escultura?! da Renascenca, tal era a perfeicao e
beleza arquitetonica das residencias, alguma coisa que seria
dificil descrever e, para fotos, ja estava muito escuro. Saint
Ann e o nome da rua. Bendito engano que me levou para mais este
pedaco de paraiso.
Cheguei por volta de 22h e nao preciso dizer que dormi como
uma rainha naquela confortavel cama, com todas aquelas imagens
agora incorporadas as minhas lembrancas; e que acordei pela
manha com o barulho de alguem na cozinha preparando o meu personalisado
cafe, uma mordomia que eu ja havia esquecido como era boa.
Voltei com a sensacao de ter vivido uma pequena e gostosa aventura
no interior da Pensilvania, que me surpreendeu pela beleza -
algo bem acima das minhas expectativas -, e com o desejo de
voltar. Para visitar, naturalmente, nunca para morar, pois sou
muito urbana para desejar ficar mais do que tres dias no interior,
por mais bonito e rico que seja o lugar.
Maria Isabel Martins
abril, 2001
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